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“No período de crise, a hegemonia dos Estados Unidos se manifestará de forma mais completa, mais aberta e mais implacável do que no período de prosperidade…

“Uma grande crise nos Estados Unidos soará o alarme para novas guerras e revoluções. Repetimos: não faltarão situações revolucionárias. Toda a questão depende do partido internacional do proletariado, da maturidade e da capacidade de luta da Comintern e da correção de sua posição estratégica e de seus métodos táticos”.

—Leon Trotsky, A Terceira Internacional após Lênin (1928)

Apresentamos a seguir o documento da conferência, elaborado pela camarada Mansa Kaur e aprovado pela IX Conferência Internacional da LCI.

INTRODUÇÃO

A situação internacional é marcada por uma contradição insustentável. Por um lado, o imperialismo dos EUA está em uma ofensiva brutal para reafirmar sua hegemonia no cenário mundial. Para isso, está disposto a mergulhar toda a humanidade em uma espiral de crises e guerras. Por outro lado, a classe trabalhadora —a única força capaz de oferecer uma alternativa progressista ao império dos EUA— ainda não entrou em cena de forma decisiva sob sua própria bandeira.

À classe trabalhadora nunca faltou a vontade de lutar; o que lhe falta é uma liderança capaz de conduzir as lutas em prol de seus interesses históricos. Por décadas, as organizações que se dizem marxistas não conseguiram fornecer essa liderança. Esse vácuo permitiu que as forças da reação crescessem. Hoje, o movimento comunista está extremamente fragmentado e isolado daqueles que afirma representar. A situação objetiva não resolverá essa crise, nem os sucessos conjunturais. Para iniciar o trabalho de reconstrução e reagrupar os revolucionários em todo o mundo, é necessário um programa, que corresponda às tarefas da época.

É com esse entendimento que a Nona Conferência Internacional da Liga Comunista Internacional (LCI) apresenta a seguinte análise e programa. Ele se baseia em uma análise crítica da esquerda marxista durante o período pós-soviético, bem como em nossa própria experiência, modesta, mas determinada, na luta de classes ao longo dos últimos três anos de turbulência global.

PARTE I: A SITUAÇÃO INTERNACIONAL

“…o que é de maior importância, daquilo que constitui a própria essência, a alma viva do marxismo: a análise concreta da situação concreta”.

—Lênin, Kommunismus (12 de junho de 1920)

Os EUA e a China

Nathan Burke/Planet Pix; Cynthia Lee/Alamy

A característica marcante de nossa época é o antagonismo entre o imperialismo estadunidense e a China. Desde 1945, os EUA têm sido a potência imperialista dominante e o fiador do sistema capitalista mundial. Mas, há décadas, sua base econômica vem sofrendo um declínio relativo. Esse processo foi acelerado pela globalização pós-soviética, cuja principal beneficiária foi a China. Esse panorama básico é amplamente reconhecido. No entanto, as dinâmicas e contradições concretas desse conflito são amplamente mal compreendidas, em favor do impressionismo e do empirismo. É necessário compreender o desenvolvimento histórico dessa relação para entender a dinâmica da situação internacional atual.

No nível da produção, a globalização levou ao esvaziamento da base industrial do bloco imperialista em favor da China e de outros países do Sul Global. A participação global dos países do G7 na produção industrial diminuiu quase pela metade, caindo de cerca de 60% em 1995 para cerca de 30% em 2020. A participação dos EUA nesse total caiu de 21% em 1995 para 17% em 2022. Durante o mesmo período, a participação da China na produção industrial global aumentou de 6% para 32%. Isso representa uma mudança verdadeiramente sísmica no equilíbrio de forças nessa arena decisiva, fundamental para uma guerra em grande escala.

No entanto, o peso industrial e comercial da China supera em muito seu papel financeiro e institucional na economia mundial, que continua firmemente dominada pelos EUA e seus aliados. As instituições que regem a economia e as relações internacionais continuam sendo aquelas estabelecidas pelos EUA, a saber, o FMI, o Banco Mundial, a OMC e as Nações Unidas. Embora o domínio do dólar estadunidense tenha diminuído, ele continua sendo a moeda de reserva mundial, conferindo aos EUA “privilégios exorbitantes”. Wall Street continua sendo o centro das finanças internacionais. A participação dos EUA na capitalização de mercado global permaneceu entre 45% e 50% nas últimas décadas, enquanto a participação da China subiu de praticamente zero em 1980 para cerca de 10% a 12% em 2025. E, embora a China seja responsável por aproximadamente 15% do comércio global, o renminbi (RMB, moeda oficial da Republica Popular da China) é utilizado para faturar apenas cerca de 2% do comércio global.

Muitos argumentam que o crescimento excepcional do poder econômico, comercial e militar da China significa que o país está se empenhando ativamente para suplantar os EUA no cenário mundial. Nada poderia estar mais longe da verdade. Fundamentalmente, a China desempenha um papel conservador e não está fazendo nada para resolver de forma decisiva a enorme distância entre sua força econômica e sua fragilidade institucional e financeira: uma anomalia para uma potência emergente.

Esse quadro se reflete na dinâmica militar entre as duas grandes potências. Os EUA continuam a ter preponderância militar, com 750 bases em todo o mundo. E embora a China tenha hoje o segundo maior exército em termos de gastos, ele está voltado para a proteção de suas próprias fronteiras, não para substituir o domínio global dos EUA. Sua única base militar no exterior fica em Djibuti no continente africano. Enquanto os EUA não têm escrúpulos em usar sua força militar, impondo sua vontade a um país após o outro, a China não entra em guerra desde 1979. Diante de ataques tarifários, ela não utilizou seu domínio sobre os minerais de terras raras para paralisar o complexo militar-industrial dos EUA. Ela praticamente nada fez para defender seus parceiros quando estes foram atacados pelos EUA: Venezuela, Irã e Cuba são os principais exemplos. No âmbito da política externa, a China prefere recorrer ao direito internacional e à cooperação do tipo “ganha-ganha”, em vez de exercer o considerável poder à sua disposição.

Fundamentalmente, a China não está agindo para estabelecer sua própria hegemonia, mas busca reformar a ordem atual para melhorar sua própria posição e obter um certo grau de autonomia. É de importância decisiva compreender por que isso ocorre. Enquanto o imperialismo, por sua própria lógica, é impelido à expansão e à conquista, a China não é movida pelas mesmas leis. A estrutura estatal e o desenvolvimento social da República Popular da China (RPC) permanecem enraizados na Revolução de 1949. Isso não significa que a política externa da China seja benevolente ou guiada pelo internacionalismo; longe disso. Mas os fundamentos sociais de seu estado significam que seu crescimento não leva necessariamente à tendência de subjugar outras nações. É por isso que simplesmente não existe uma zona de influência exclusivamente chinesa que se imponha às custas do império dos EUA.

A contradição principal na essencia do sistema mundial resume-se à seguinte dinâmica: a hegemonia dos EUA está sendo minada pela ascensão da China, mas o Partido Comunista da China (PCC) não está tentando derrubar a ordem liderada pelos EUA. Dada a decadência da indústria e o papel parasitário desempenhado pelo capital financeiro, a economia dos EUA simplesmente não consegue superar a China por meios convencionais. Para se manter no topo, precisa recorrer a cada vez mais agressão e força para derrubar o resto do mundo. Estamos, portanto, diante de uma situação historicamente sem precedentes, em que a potência emergente luta para preservar o status quo, enquanto a potência em declínio o destrói, tentando forjar um novo realinhamento reacionário nas relações mundiais, pressionando aliados e inimigos por igual para alcançar esse objetivo.

Os aliados impotentes

Nessa dinâmica emergente, a Europa se vê presa em uma contradição crescente. O enfraquecimento da hegemonia dos EUA aumenta a necessidade de as potências europeias terem maior autonomia estratégica. No entanto, apesar das tensões crescentes, a União Europeia (UE) não rompeu com os EUA, mas está se alinhando às suas imposições, dedicando recursos cada vez maiores para sustentar o império estadunidense. Em primeiro lugar, isso se explica pelo fato de que toda a base da Europa moderna foi construída sob a proteção do poder militar dos EUA, desde sua formação após a Segunda Guerra Mundial até sua expansão após o colapso da URSS. Isso se concretiza na OTAN. Sem os EUA como força unificadora, a UE se desintegraria em suas partes constituintes.

Em segundo lugar, devido ao seu próprio declínio relativo, os países imperialistas da UE tornaram-se cada vez mais dependentes dos EUA para defender sua posição privilegiada no cenário mundial. Apesar de suas melhores intenções e das múltiplas declarações vazias em sentido contrário, eles não têm, atualmente, a capacidade de projetar seu poder de forma independente. Assim, em vez de emergir como um polo independente, a Europa está cada vez mais seguindo o rumo reacionário traçado por Washington, destruindo, nesse processo, sua própria estabilidade econômica e política. A mesma dinâmica explica a trajetória do Japão e de potências imperialistas menores, como o Canadá e a Austrália.

A Rússia, o objeto inamovível

A Rússia se destaca como uma força importante na resistência aos EUA. Embora possua poder militar suficiente para obstruir as ambições dos EUA, carece do peso econômico e social necessário para estabelecer uma ordem global rival. A guerra na Ucrânia, que a Rússia provavelmente vencerá, demonstra sua capacidade de resistir e repelir a expansão da OTAN em sua fronteira ocidental. No entanto, esses esforços tiveram um custo considerável. Além disso, suas tentativas de aventuras internacionais, seja na Síria ou na África, não tiveram sucesso e não aumentaram significativamente sua influência internacional. O papel geral da Rússia é menos o de um polo alternativo ao domínio dos EUA e mais o de um freio a ele: acelerando a crise da ordem existente sem ser capaz de substituí-la.

A espiral de reação na Ásia Ocidental

Desde 7 de outubro, Israel se envolveu em um ciclo crescente de matança, apoiado a cada passo pelos EUA. Essa dinâmica não se deve principalmente ao próprio dia 7 de outubro, mas ao enfraquecimento relativo da posição de Israel e dos EUA na região, principalmente em favor do Irã. Como projeto nacionalista enraizado na opressão e no genocídio dos palestinos, o sionismo não pode tolerar nenhum contrapeso regional ao seu domínio que possa desafiar sua capacidade de oprimir as massas árabes. Como resultado, o estado sionista tem utilizado métodos cada vez mais agressivos para restabelecer sua supremacia na Ásia Ocidental, destruindo todo o tecido social da região.

Embora os EUA e Israel tenham conseguido infligir derrotas táticas e estratégicas (por exemplo, na Síria) a muitos de seus adversários, isso não resolveu a crise implícita de sua posição regional. A superioridade militar não lhes permitiu estabelecer uma ordem política estável, e fracassaram em suas tentativas de destruir a República Islâmica. No entanto, resta saber quais serão as consequências a longo prazo do aumento da pressão sobre o Irã. O que é certo é que os EUA e Israel continuarão a causar devastação incalculável na região até que sejam derrotados de forma decisiva.

A América Latina na mira

O presidente venezuelano Maduro foi sequestrado pelos EUA.
U.S. Department of Defense

O presidente venezuelano Maduro foi sequestrado pelos EUA.

A ascensão da China proporcionou a muitos países latino-americanos maior margem de manobra econômica e diplomática, enfraquecendo o quase monopólio outrora exercido pelo imperialismo estadunidense. No entanto, a região continua profundamente integrada às estruturas políticas, militares e financeiras do domínio estadunidense. À medida que a hegemonia dos EUA sofre pressão crescente em nível global, Washington tenta reafirmar sua autoridade dentro do que continua a considerar sua esfera exclusiva de influência. Para isso, aproveita tanto sua vantagem militar decisiva quanto sua influência sobre setores-chave das elites governantes da região. Devido a essas vantagens, os EUA identificaram a América Latina como o terreno mais favorável para conter a China e garantir a reindustrialização.

Isso já se refletiu em um realinhamento de vários governos com Washington e em uma afirmação mais agressiva do poder dos EUA, como visto no sequestro do presidente venezuelano Maduro e na escalada do bloqueio contra Cuba. Assim, a relativa autonomia conquistada por setores do continente, bem como os interesses econômicos da China, colidem cada vez mais com a renovada determinação do imperialismo estadunidense de restaurar sua autoridade no Hemisfério Ocidental.

África em fragmentação

O continente africano pode não ser o ponto focal da competição entre as grandes potências, mas é afetado de forma desproporcional por suas consequências. Em um momento em que o desenvolvimento econômico e a integração continental são mais necessários do que nunca, a África é cada vez mais puxada para fragmentação e conflito. A ausência de estados nacionais fortes significa que os choques geopolíticos causam um impacto muito maior em um tecido social já vulnerável. Isso abre espaço para que atores regionais e globais explorem as divisões existentes. À medida que as antigas potências imperialistas competem com uma China em ascensão, bem como com atores regionais, incluindo a Rússia, a Türkiye e as monarquias do Golfo, os conflitos locais estão se tornando cada vez mais entrelaçados com rivalidades geopolíticas mais amplas. Estados como Ruanda também têm buscado promover seus próprios interesses estratégicos, intervindo além de suas fronteiras e aprofundando as tensões existentes. Os diversos conflitos que abalam o continente —em particular no Sudão, no Sahel e na República Democrática do Congo— e o agravamento dos antagonismos sociais dentro de cada país apontam para a fragmentação do estado, o intensificar dos antagonismos nacionais e étnicos e o colapso da autoridade pública e dos serviços públicos.

No entanto, a fragmentação da África não é novidade. Mesmo o período liberal, que trouxe algum crescimento econômico ao continente, foi atormentado por guerras sangrentas e genocídios, de Ruanda ao Congo e a Darfur. Embora o período liberal tenha testemunhado um aumento enorme da ajuda imperialista por meio de ONGs e instituições internacionais, essa ajuda sofreu agora uma grande redução. Em vez de ajuda, os EUA estão lidando com as crises do continente com desinteresse, pilhagem descarada ou uso aberto do poder duro. Assim, a fragmentação atual é caracterizada por um aumento em alcance e profundidade.

Embora o estado fragmentado do continente apresente perigos extremos, sua classe trabalhadora jovem, em crescimento e hiperexplorada também possui imenso potencial revolucionário. As próprias contradições que dividem e enfraquecem a África tornam a necessidade de uma derrubada revolucionária da ordem neocolonial e da unificação do continente sobre uma nova base social ainda mais palpável e urgentemente necessária.

Sudeste Asiático: entre a bigorna e o martelo

A globalização integrou o Sudeste Asiático às cadeias de abastecimento internacionais como um elo intermediário, dominado por gigantes industriais estrangeiros, dependente de insumos chineses e voltado para os mercados de consumo dos EUA. “Com a China no comércio, com os EUA na segurança” era o lema da ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático). Agora, isso significa estar preso entre a bigorna e o martelo. Os EUA estão minando as economias da região, atacando suas cadeias de abastecimento com o objetivo de estrangular a China. Em um aviso do que está por vir, os ataques tarifários de Trump e a guerra contra o Irã já desferiram golpes econômicos devastadores em uma região onde grande parte da população vive à beira do abismo. Ao militarizar o Sudeste Asiático e incentivar a expansão agressiva das forças japonesas por toda a região pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, os EUA estão evocando o espectro da guerra à medida que intensificam sua ameaça contra a China. Por todo o Sudeste Asiático, o terreno está sendo preparado para explosões sociais.

Economia global à beira do abismo

Apesar das crescentes tensões geopolíticas, a estrutura básica da economia mundial tem se mantido notavelmente resiliente. Mas as mesmas forças que sustentaram essa resiliência —principalmente o desempenho extraordinário do mercado de ações dos EUA— estão gerando novas contradições que ameaçam desestabilizar todo o sistema. A alta vertiginosa de Wall Street, que desafia a gravidade, tem sido impulsionada por níveis sem precedentes de estímulos fiscais e monetários, por gastos enormes de capital por parte das principais empresas de tecnologia e pela agitação especulativa que ambos geraram. Embora seja impossível saber exatamente quando essa dinâmica chegará ao fim, o que é certo é que o eventual esvaziamento do boom especulativo centrado no setor de tecnologia terá consequências profundas para a situação mundial. Já agora, as pressões deflacionárias da China e o excesso de capacidade industrial estão sendo exportados para o resto do mundo, provavelmente sinais precoces de uma crise global de superprodução capitalista.

O estouro da bolha financeira varrerá as montanhas de capital fictício que mascaram o verdadeiro equilíbrio das forças internacionais e exporá a podridão no coração do império dos EUA. No entanto, enquanto a arquitetura básica da economia mundial permanecer intacta, os EUA manterão enormes vantagens na definição tanto da resposta à crise quanto de seu desfecho, o que lhes permitirá transferir uma parcela significativa da carga para outros países.

Em primeiro lugar, podemos esperar que a crise que se aproxima agrave todas as dinâmicas existentes e intensifique os ataques capitalistas. Mas caso resultar em um mergulho ainda mais profundo na reação ou abrir caminho para desenvolvimentos revolucionários dependerá, acima de tudo, da resposta do proletariado internacional. Aqui, os desfechos dependem da liderança e da organização da classe trabalhadora em cada país. É para essa questão política que nós voltamos agora.

PARTE II: A DINÂMICA DA POLÍTICA MUNDIAL

“A ruptura da correlação entre o subjetivo e o objetivo é, falando em linhas gerais, tanto a fonte essencial do cômico quanto a do trágico, na vida como na arte. O campo da política, menos ainda que qualquer outro, escapa ao efeito desta lei. Os homens e os partidos são heroicos, ou ridículos, não em si mesmos, nem por si próprios, mas pela atitude que mantêm diante das circunstâncias”.

—Leon Trotsky, A história da Revolução Russa (1930)

A morte do liberalismo e a ascensão da reação

O status quo político do período pós-soviético está desmoronado. As ferramentas ideológicas adequadas à era pós-soviética de hegemonia dos EUA já não correspondem às necessidades das potências imperialistas atuais. Quando a hegemonia dos EUA era incontestável, o país podia se dar ao luxo de praticar a democracia liberal tanto internamente quanto no exterior, financiar ONGs e proclamar-se defensor dos direitos humanos, do livre comércio, do multiculturalismo etc. Esse caminho agora se esgotou. À medida que sua hegemonia se dissipa, os EUA precisam partir para a ofensiva. Não podem fazer isso por meio de valores e instituições liberais, que agora são obstáculos aos seus objetivos.

A morte do liberalismo não significa que um novo realinhamento na política mundial já tenha sido selado. A tendência geral desencadeada pela ofensiva do imperialismo estadunidense é de crescente instabilidade, reação e conflito. Mas não estamos em um caminho direto para o inferno. Há uma diferença entre as necessidades e os objetivos do imperialismo estadunidense e sua capacidade de atendê-los e implementá-los. Sua ofensiva já provocou todo tipo de resistência. No entanto, os diversos contendores e aspirantes a desafiantes estão revelando sua falência, permitindo assim que os EUA mantenham a iniciativa na definição da política mundial, mesmo em seu declínio. Como resultado, a ordem mundial liberal está sendo derrubada por uma direita imperialista insurgente, e não por meio de uma revolta proletária ou de uma ofensiva anti-imperialista.

Os líderes do Sul Global estão sob pressão cada vez maior para resistir às depredações do imperialismo estadunidense, mas, limitados por seus próprios interesses de classe e pelo medo de mobilizar as massas, buscam acomodar e manobrar em vez de confrontar. O Partido Comunista da China, que preside sobre as conquistas da Revolução de 1949, está desperdiçando a energia revolucionária e o potencial do gigantesco proletariado chinês ao se agarrar aos resquícios da globalização e da ordem mundial liberal. A maioria dos demais líderes está focada em equilibrar as diversas pressões, em vez de se unirem contra os EUA. O melhor exemplo disso é o BRICS+, uma aliança sem objetivos estratégicos unificadores e que representa menos do que a soma de suas partes.

Quanto ao movimento operário, na maioria dos casos seus líderes estão tentando desesperadamente sustentar o status quo liberal, mesmo enquanto ele desmorona diante de seus olhos. Aqueles da esquerda que afirmam querer uma ruptura radical, ou mesmo uma revolução, geralmente estão distantes dos sentimentos genuínos das massas, contentando-se com abstrações desconectadas das tarefas concretas da época. A ausência de uma oposição proletária independente ao imperialismo estadunidense é o fator mais importante que molda os desdobramentos mundiais, seja nos centros imperialistas, no mundo semicolonial ou nos diversos movimentos de resistência. Até que isso mude, a erosão da hegemonia estadunidense continuará a ocorrer em termos reacionários, aumentando a opressão das massas em vez de promover sua emancipação.

Isso não significa que forças não revolucionárias não possam causar derrotas aos EUA. Mas esses derrotes sempre serão parciais ou temporarias. Forjar uma verdadeira liderança proletária é o problema central da estratégia revolucionária na época atual. Ela só pode começar a ser resolvida por meio de uma avaliação realista das dinâmicas políticas e da extração de lições claras da experiência das lutas contemporâneas.

A direita populista em ascensão no Ocidente

A direita populista está surgindo em todo o Ocidente como a principal força contrária ao status quo, desde Trump e o MAGA nos EUA até o Reform na Grã-Bretanha, passando pela AfD na Alemanha e pelo One Nation, de Pauline Hanson, na Austrália. Ela vem ganhando terreno com base na convergência entre as necessidades da estratégia imperialista dos EUA e uma ampla rejeição ao status quo liberal por parte de camadas significativas da população. Como resultado, ela está cada vez mais capaz de canalizar a raiva e o ressentimento da classe trabalhadora para uma agenda política reacionária. O sinal mais claro dessa guinada para a direita é que o próprio centro político de ontem está adotando elementos da direita: na Grã-Bretanha, o Partido Trabalhista mudou de posição em relação à imigração e, nos EUA, os democratas abandonaram sua antiga pretensão de defender os direitos dos negros e das pessoas trans.

A “Onda Rosa” da América Latina quebra-se

Shield of the Americas
Saul Loeb/AFP

Reunião da aliança trumpista de vilões latino-americanos, 7 de março.

A crescente onda de governos de direita na América Latina é impulsionada por uma rejeição semelhante ao status quo das últimas décadas no continente. Os governos populistas de esquerda, que chegaram ao poder impulsionados por uma onda de sentimento anti-imperialista na década de 2000, estão hoje caindo como moscas. Embora esses governos tenham promulgado muitas reformas progressistas, eles também contiveram a energia revolucionária das massas, levando, em última instância, a recuos e traições. Agora, são as forças populistas de direita e pró-imperialistas que estão se aproveitando do fracasso desses governos em proporcionar melhorias duradouras, e não os desafiantes marxistas munidos das lições da Onda Rosa.

O regime bolivariano na Venezuela desmoronou-se diante do primeiro golpe militar direto do imperialismo estadunidense. O quão profundamente podre o regime havia se tornado ficou evidente pela ausência de qualquer levante popular significativo contra o sequestro do presidente Maduro e pelo fato de que a ex-chavista Delcy Rodríguez agora colabora com os EUA.

Uma tendência semelhante é observável em Cuba, um farol para os oprimidos e anti-imperialistas desde 1959. A Revolução Cubana hoje está por um fio, à medida que Trump intensifica o cruel bloqueio dos EUA. No entanto, em vez de uma estratégia internacionalista e revolucionária para romper o bloqueio, o Partido Comunista de Cuba está apostando tudo nas negociações e abriu as portas para uma tomada de controle capitalista da economia. Isso só pode encorajar os EUA e os gusanos, que estão determinados a esmagar de vez a Revolução Cubana.

Há contradições nesse quadro. O México e o Brasil ainda têm governos de esquerda. Mas, embora tenham enfrentado os EUA com palavras, tanto Lula, no Brasil, quanto Sheinbaum, no México, também fizeram inúmeras concessões. No caso da Bolívia, a revolta popular contra o governo neoliberal de Paz abriu uma possibilidade real de contra-ataque. No entanto, a direção da Confederação dos Trabalhadores da Bolívia fez um pacto com o governo e pediu o fim dos bloqueios, traindo assim as massas indígenas e camponesas. Isso causou uma ruptura entre os movimentos operário e camponês, enfraquecendo sua capacidade de lutar contra a burguesia boliviana e seus senhores em Washington. Paz agora tem terreno fértil para intensificar seus ataques contra as massas. Ele já prendeu líderes camponeses, atacou os sindicatos e piorou as condições de vida. Esse desfecho fortalece o domínio do imperialismo estadunidense na região.

Consolidação da direita na Ásia do Sul

A dinâmica nos países da Ásia do Sul nos apresenta um quadro avançado do que está por vir para o Sul Global. Espremidos entre pressões externas crescentes e as gigantescas necessidades internas, os governos de países como Índia e Paquistão estão recorrendo a um nacionalismo cada vez mais religioso, à repressão e ao bonapartismo para administrar as contradições de suas sociedades e garantir seu domínio.

Na Índia, o BJP consolidou seu poder nacional por meio de vitórias nas recentes eleições estaduais, em parte possibilitadas pela limpeza em massa das listas eleitorais. A esquerda está se tornando cada vez mais irrelevante. Os comunistas, tendo alienado sua base ao longo de décadas, perderam seu último ponto de apoio no poder, e a insurgência maoísta está sendo esmagada pelo estado. No Paquistão, há um entrincheiramento ainda maior da ditadura militar, esmagando qualquer dissidência, seja ela proveniente da esquerda, da Caxemira ou do ex-primeiro ministro Imran Khan. Mas há um limite para o quanto as massas estão dispostas a tolerar. À medida que entramos em um período mais instável, o pavio social que se acumula na base dessas sociedades só encontrará mais dinamite, ameaçando explodir e desestabilizar o governo desses Bonapartes, como as revoltas nos vizinhos Nepal, Bangladesh e Sri Lanka. As recentes lutas na Caxemira ocupada pelo Paquistão e o movimento estudantil na Índia representam um potencial semelhante.

Oportunidades perdidas

Houve oportunidades importantes nos últimos anos que poderiam ter mudado o rumo dos acontecimentos e colocado a classe trabalhadora no cenário político como um fator determinante nos eventos nacionais e internacionais. Isso não aconteceu, seja no aumento das greves no Ocidente após a pandemia da Covid, seja nas revoltas da Geração Z no Sul Global. Em todos os casos, não havia uma liderança pronta para aproveitar de forma decisiva essas mobilizações, permitindo que a classe dominante recuperasse a iniciativa. Em cada caso, o obstáculo não foi a ausência de militância, mas a ausência de liderança.

A onda de greves na Grã-Bretanha (2022-23) e a luta contra a reforma previdenciária na França (2023) foram derrotadas por líderes sindicais relutantes em intensificar a luta o suficiente para derrotar decisivamente os governos. Nos EUA, a onda de greves e disputas contratuais em 2023 (UPS, ILWU, UAW e Hollywood), bem como as greves da Boeing e da ILA em 2024, foram resolvidas com aumentos salariais, mas deixando sem solução as outras questões decisivas que motivaram as greves. Isso teve o efeito de conter a luta de classes. Se essas lutas tivessem sido bem-sucedidas, a classe trabalhadora teria emergido como uma força mais forte, revitalizada e mais unida, com confiança em sua própria capacidade de lutar e vencer.

Na Grécia, a luta de Tempi poderia ter mudado radicalmente o rumo do país, com o potencial de alterar a relação de forças em favor do proletariado após a grande derrota de 2015. No entanto, o movimento operário não conseguiu capitalizar o descontentamento das massas. O KKE, a liderança do movimento operário e a esquerda capitularam perante a liderança pequeno-burguesa do movimento, que promoveu uma estratégia de “sem partidos nem cores”, rejeitando uma perspectiva da classe trabalhadora. Sua política se recusou a transformar a raiva das massas em uma luta decisiva contra a subjugação imperialista, que causou o crime. Essa derrota enfraqueceu e desmoralizou ainda mais a classe trabalhadora e os oprimidos.

As recentes revoltas da Geração Z foram importantes explosões de descontentamento alimentadas pela rápida deterioração das condições de vida dos jovens no mundo semicolonial e pelo ódio fervoroso contra seus governantes corruptos. No entanto, a energia bruta que as impulsionava não foi, por si só, suficiente para melhorar a situação geral das massas. Algumas revoltas foram esmagadas pela repressão (Indonésia, Marrocos, Peru), enquanto outras levaram à formação de governos de direita (Bangladesh, Nepal) e a um regime militar (Madagascar). Esses resultados decorrem da ausência de uma liderança política coerente, capaz de traçar um rumo progressista contra as classes dominantes e a subjugação imperialista. O fato de as classes trabalhadoras terem desempenhado um papel marginal nesses movimentos acentuou sua heterogeneidade, deixando-as vulneráveis à repressão e à cooptação.

O golpe de dezembro de 2024, liderado pelo ex-presidente sul-coreano Yoon Suk-yeol, foi rapidamente repelido por mobilizações de massa lideradas por sindicatos militantes. Essa derrota impressionante colocou a classe trabalhadora em uma posição de força. Essa reação contra a agenda ferozmente pró-EUA de Yoon Suk-yeol poderia ter aberto uma grande fissura na aliança entre os EUA e a Coreia do Sul, a pedra angular da reação no país. No entanto, os líderes sindicais traíram a causa, canalizando a raiva para um voto no Partido Democrático igualmente pró-imperialista, mas menos fanático, estabilizando assim a situação política para a classe dominante.

A esquerda liberal em seus últimos suspiros

Embora a direita esteja em ascensão internacionalmente, a crescente instabilidade e turbulência no mundo continuam, mesmo assim, a impulsionar formas de resistência de esquerda construídas e moldadas pelo período anterior. No âmbito dos partidos políticos, isso inclui formações como os Verdes e o já moribundo Your Party na Grã-Bretanha, o Die Linke na Alemanha e a La France Insoumise. Muitos observam esses partidos e ganham um renovado senso de esperança. Isso é tão perigoso quanto ilusório.

O que está alimentando esse “ressurgimento de esquerda” infelizmente não é uma nova onda de militância da classe trabalhadora nem um apoio profundo dessa classe. Em vez disso, a força motriz desses partidos é a sensação palpável de pânico e desespero entre amplas camadas de liberais da classe média e estudantes progressistas, bem como entre minorias que, com razão, estão aterrorizadas com a perspectiva de governos de direita. Esses partidos e seus líderes representam uma reação instintiva aos acontecimentos mundiais, agarrando-se a uma versão mais radical do liberalismo diante da incerteza e do caos. Reciclar os clichês desgastados do liberalismo quando a ordem mundial que os sustentava está desaparecendo não é uma receita para o sucesso, mas para um desastre espetacular.

É precisamente esse caráter que torna esses partidos impotentes e que afasta ainda mais os trabalhadores mais conservadores deles, fortalecendo a direita em seus respectivos países: os Verdes ficam atrás do Partido da Reforma na Grã-Bretanha, o Die Linke bem atrás da AfD e Mélenchon atrás da extrema direita na França. O que estamos testemunhando não é um ressurgimento da esquerda, mas uma tragicomédia sendo escrita pela crescente lacuna entre a situação objetiva que se agrava e os elementos subjetivos completamente inúteis que são apresentados em resposta.

Os defensores desse ressurgimento da esquerda também apontam para a recente greve dos trabalhadores italianos pela Palestina e o movimento “bloquear tudo” na França. No entanto, esses movimentos não conseguiram se consolidar como movimentos duradouros. Eles terminaram assim que começaram e não alteraram as trajetórias gerais de seus países. Na França, o Rassemblement National está se aproximando cada vez mais do Palácio Presidencial e, na Itália, Meloni não enfrenta nenhum desafio significativo ao poder. Em ambos os casos, o que estamos testemunhando é a incapacidade do sindicalismo radical —uma forte tradição nos dois países— de lidar com a situação mundial em transformação.

A esquerda dos EUA abandona a política identitária, mas não os democratas

Mamdani poster
socialistsanddemocrats

Parece tão 2008.

O segundo mandato de Donald Trump provocou importantes mudanças na esquerda dos EUA. No campo eleitoral, o socialista democrático Zohran Mamdani foi eleito prefeito de Nova York com uma plataforma centrada em questões de subsistência, explicitamente inspirada no “socialismo de esgoto” do século XX. Concretamente, essa plataforma se baseia em evitar as questões sociais mais explosivas, como a opressão racial e a brutalidade policial. Trata-se de um importante afastamento da era da política identitária. Assim como outros representantes eleitos do DSA (Socialistas Democráticos da América), Mamdani não perdeu tempo em atacar a classe trabalhadora e as massas negras e latinas. No entanto, isso não impediu que a maior parte da esquerda saudasse sua vitória como um grande triunfo, justificando suas traições e recusando-se a travar uma luta real no DSA e no movimento operário para romper com o Partido Democrata.

Em resposta ao terror do ICE nas ruas, houve lutas populares importantes e muitas vezes heroicas. O ponto alto dessas mobilizações foi alcançado em Minneapolis, após o assassinato de dois manifestantes contra o ICE. Embora essas lutas tenham demonstrado que existe uma profunda oposição popular ao programa totalitário de deportação de Trump, elas também revelaram a incapacidade do movimento, até o momento, de romper com a liderança conservadora dos sindicatos e do Partido Democrata. Trump foi forçado a recuos temporários, mas sua ofensiva anti-imigrante como um todo não foi quebrada.

O Eixo da Resistência em um beco sem saída

A resistência da República Islâmica contra o ataque militar dos EUA e de Israel alimentou ilusões de que esse regime teocrático-capitalista possa liderar a luta contra o imperialismo na Ásia Ocidental. Mas, embora a República Islâmica tenha demonstrado que pode enfrentar os EUA, ela mostrou, simultaneamente, que é totalmente relutante e incapaz de servir como ponto de articulação para uma resistência anti-imperialista genuína, capaz de expulsar os EUA da região.

A camada dominante iraniana certamente tem interesse nisso, mas esse interesse fica em segundo plano em relação ao de manter sua própria existência parasitária. Como resultado, mantém a resistência contra a agressão estrangeira sob um rígido controle militar-burocrático, recusando-se a convocar as massas da região para que se juntem à luta. Além disso, o regime interno despótico da República Islâmica divide os oprimidos segundo critérios nacionais, religiosos e de gênero, tornando impossível uma luta anti-imperialista unificada. Pior ainda, sua repressão sangrenta à dissidência empurra amplas camadas da população para os braços da reação monarquista e pró-imperialista. Para derrotar o imperialismo e expulsá-lo da região, é necessária a mais ampla unidade das massas, que simplesmente não pode ser construída com base na política da República Islâmica.

A resistência do povo palestino contra o ataque genocida sionista tem sido heroica. No entanto, esse fato não deve ser usado para mascarar o impasse político e estratégico do movimento de libertação. O povo palestino passou por uma catástrofe social e humana em escala sem precedentes. Gaza está em um estado de desastre total e Israel quer anexar faixas inteiras do que resta dela. A Cisjordânia está pior do que nunca. Isso expôs os fracassos da estratégia do Hamas: a dependência da opinião pública liberal e dos regimes árabes para derrotar Israel, em vez de contar com as massas da Ásia Ocidental em uma luta unida contra Israel, os EUA e os regimes árabes que se conciliam com eles. Nesse impasse da resistência, o Hamas está basicamente negociando os termos de seu próprio desarmamento, e o movimento não tem uma perspectiva estratégica sobre como dar continuidade à luta.

Movimento pela Palestina dissipa-se

Policiais levam uma ativista pró-Palestina em Berlim
Ilkin Eskipehlivan/Anadolu

Policiais levam uma ativista pró-Palestina em Berlim, outubro de 2025.

O genocídio em Gaza mobilizou milhões de pessoas, e centenas de milhares marcharam nas principais cidades do mundo por mais de dois anos. No entanto, isso não foi suficiente para deter Netanyahu. No Ocidente, o movimento ficou paralisado pela indignação liberal que dominava sua política e por sua dependência de políticos como Rashida Tlaib, nos EUA, que se manifestava contra Israel ao mesmo tempo em que era representante do próprio partido que estava facilitando o genocídio. Em países de maioria muçulmana, como Indonésia, Malásia e Türkiye, os governos apoiaram ou até mesmo organizaram mobilizações em massa, mantendo, ao mesmo tempo, seu alinhamento com os EUA.

O movimento pela Palestina não tinha como perspectiva estratégica unir as necessidades da classe trabalhadora à luta pela libertação palestina. Isso teria exercido pressão real sobre os governos para que rompessem seu apoio ou conciliação com Israel. Em vez disso, na maioria dos países, as marchas de massa pela Palestina eram amplamente toleradas, eventos regulares que se tornaram a norma para dar vazão à raiva. Mas qualquer coisa que violasse essa norma e buscasse desafiar sua direção permanecia relativamente isolada e era brutalmente reprimida pelas forças do estado. Hoje, o movimento encontra-se enfraquecido. Os revolucionários devem tirar lições sóbrias desse resultado e trabalhar em prol de seu rearmamento político.

Temos de nos preparar para ataques, choques e convulsões

De modo geral, o equilíbrio de forças internacional não é favorável à classe trabalhadora e aos oprimidos no futuro previsível. O imperialismo estadunidense está em fúria, a direita está em ascensão e há um abismo cada vez maior entre a esquerda e a classe trabalhadora na maioria dos países.

Por enquanto, a desmoralização, a apatia e uma tendência à retirada e à autopreservação são a tendência dominante na classe trabalhadora. Mas a luta de classes não segue em linha reta. A direita populista está aproveitando o descontentamento acumulado e, com sucesso, canalizando-o para posições anti-imigrantes e outros caminhos reacionários. Esse modelo pode funcionar por algum tempo, mas é fundamentalmente incapaz de resolver qualquer um dos fatores implícitos à crise social. Aqueles que esperam que a direita cumpra suas promessas —de crescimento, empregos e um retorno aos “bons velhos tempos”— ficarão decepcionados. Inevitavelmente, as classes trabalhadoras serão levadas à ação. A questão para os revolucionários é se esses confrontos resultarão, em última instância, em vitórias, fortalecendo o movimento operário, ou em derrotas e uma deriva ainda maior em direção à reação imperialista.

No Sul Global, o subdesenvolvimento crônico e a ofensiva imperialista dos EUA estão intensificando a crise social e aprofundando a instabilidade. A combinação de estrangulamento imperialista, decadência interna e crescente descontentamento no país está acumulando pressão sobre as burguesias nacionais corruptas, empurrando-as para a repressão, o bonapartismo e as divisões nacionalistas para impedir uma luta unida. Para os revolucionários, a tarefa que se apresenta é uma preparação séria. Devem libertar-se da armadilha de se colocarem na esteira de cada movimento que surge ou de recorrerem aos métodos abstratos da luta de classes “pura”. A tarefa consiste em fundir as necessidades das massas com a luta pela libertação nacional do domínio imperialista.

PARTE III: UM PROGRAMA REVOLUCIONÁRIO

“Ninguém se preocupou em pavimentar antecipadamente o caminho do surto revolucionário para o proletariado. Com paradas inevitáveis e recuos parciais, é preciso avançar por um caminho entrecruzado por inúmeros obstáculos e coberto pelos escombros do passado. Aqueles que se assustam com isso é melhor que se afastem”.

—Leon Trotsky, “Construir novamente os partidos comunistas e uma internacional” (1933)

Lutar contra o império dos EUA!

Manila, 4 de julho
Melvin James Urubio/NurPhoto

Manila, 4 de julho: protesto contra a presença militar dos Estados Unidos. A faixa diz: “As Filipinas não estão à venda!”.

O imperialismo estadunidense é a principal força que arrasta o mundo para a selvageria. Lutar contra o império dos EUA é, portanto, fundamental para o proletariado internacional e para os oprimidos em todos os lugares. A classe trabalhadora nos EUA é obrigada a pagar pelas ambições globais de sua classe dominante por meio do militarismo, da austeridade e dos ataques ao seu padrão de vida. Em todos os países imperialistas e nas semicolônias alinhadas aos EUA, as classes dominantes permanecem profundamente ligadas à ordem existente. Seja a lealdade à OTAN e ao transatlantismo no Ocidente, o Japão marchando rumo ao rearmamento ou o Quad no Oceano Índico, opor-se à aliança com os EUA constitui parte integrante da luta contra as classes dominantes nesses países.

Na Ucrânia, soldados estão sendo enviados para o matadouro em nome dos interesses dos imperialistas ocidentais e de seus fantoches ucranianos. Nos países neocoloniais e nos estados operários que enfrentam sanções, pressão econômica ou ameaças militares, a luta contra a opressão nacional e social mobilizará milhões de pessoas, colocando em pauta a derrubada da dominação imperialista e das burguesias nacionais. Em todos os lugares, a luta contra o imperialismo estadunidense fornece uma base para unir os trabalhadores além das fronteiras e forjar uma liderança revolucionária internacional capaz de desafiar a ordem mundial existente.

Por uma estratégia proletária contra o imperialismo estadunidense!

Os revolucionários devem construir a oposição mais forte ao império estadunidense. Mas a questão decisiva é qual estratégia política e quais métodos de luta são capazes de derrotá-lo de forma verdadeiramente progressista. A emancipação da humanidade do barbarismo não depende da vitória de uma classe dominante rival ou de um bloco geopolítico sobre outro, mas do triunfo revolucionário do proletariado internacional. Os meios e métodos da luta anti-imperialista são inseparáveis de seus objetivos: só são admissíveis aqueles meios que constroem a independência política e a unidade das massas trabalhadoras. Qualquer coisa em sentido contrário acaba por aprofundar as divisões nacionais, fortalecer as classes dominantes e, portanto, enfraquecer a luta contra o imperialismo.

Essa é a falha central do “campismo”. Ele rejeita a independência proletária como fio condutor da luta anti-imperialista e apoia qualquer força que se oponha aos EUA e seus aliados, independentemente de seu caráter de classe ou de suas políticas. Sob essa lógica, estados como a Rússia e a República Islâmica do Irã, ou alianças como o BRICS+, são tratados como polos progressistas de resistência simplesmente porque representam um desafio ao domínio dos EUA. Essa lógica do “mal menor” acaba por justificar os crimes e a opressão perpetrados por tais forças, sob o argumento de que enfraquecem um rival.

As implicações dessa abordagem são desastrosas. Tomar partido pela Rússia na guerra da Ucrânia, por exemplo, com base no argumento de que ela está lutando contra um agente da OTAN, aceita e legitima a opressão nacional dos ucranianos como um mal menor na luta contra o imperialismo dos EUA. Isso divide ainda mais a classe trabalhadora na Europa Oriental, vinculando-a aos seus respectivos governantes, obstruindo assim sua unidade revolucionária contra as forças dominantes responsáveis pelo atual status quo na região: os EUA, a UE e a OTAN. A mesma lógica se aplica ao Irã, onde o apoio político à República Islâmica contra os EUA afasta as massas curdas e outras minorias oprimidas, abrindo caminho para que forças pró-imperialistas intervenham como suas salvadoras contra um regime opressor, aprofundando assim as divisões e fortalecendo o domínio do imperialismo na região. Em ambos os casos, o que é necessário é tomar uma posição contra o imperialismo estadunidense, ao mesmo tempo em que se propõe uma estratégia proletária.

Pela libertação nacional sob a bandeira comunista!

manifestação em massa contra o governo em Rawalakot
AFP

24 de junho: manifestação em massa contra o governo em Rawalakot, na Caxemira ocupada pelo Paquistão.

A ofensiva do imperialismo dos EUA está subjugando e devastando ainda mais os países do Sul Global, atribuindo à luta pela libertação nacional uma urgência cada vez maior. Os revolucionários devem se opor às pilhagens econômicas e militares dos EUA e de seus aliados, cujas guerras, sanções e coação estão causando estragos nas nações oprimidas. Isso significa tomar partido pelas forças que estão diretamente sob a mira, da Palestina ao Irã e Cuba. Posicionar-se firmemente contra a opressão nacional em todos os lugares é uma pré-condição para unir o proletariado internacional contra o imperialismo.

A tarefa decisiva é lutar pela liderança da luta de libertação nacional em oposição à burguesia nacional, que alega representar os interesses de toda a nação e usa o nacionalismo para reforçar sua autoridade. Como classe exploradora, ela acabará buscando conter, desviar ou esmagar a mobilização independente das massas a fim de preservar seu próprio poder, traindo assim a luta contra o imperialismo. Os revolucionários devem expor suas vacilações, levando adiante a luta contra o imperialismo.

O movimento marxista e anti-imperialista está dividido em duas tendências erradas. Uma rejeita as lutas de libertação nacional por considerá-las inerentemente burguesas, proclamando a revolução socialista ao mesmo tempo em que abandona as aspirações reais das massas. Ao fazer isso, deixa as massas à mercê da liderança dos nacionalistas. A outra tendência segue na cauda da burguesia nacional, especialmente de suas alas radicais ou anti-imperialistas, vinculando igualmente as massas às forças nacionalistas e abandonando os grupos oprimidos à manipulação por forças pró-imperialistas. Ambas as tendências abandonam a tarefa central: construir a liderança proletária da luta pela libertação nacional.

Por uma aliança de operários e camponeses!

Devido à dominação colonial e neocolonial direta, as questões democráticas não resolvidas continuam sendo uma característica marcante do mundo semicolonial. A principal delas é a questão agrária: o destino de milhões de camponeses pobres, trabalhadores sem terra e trabalhadores rurais. O ataque do imperialismo estadunidense contra as semicolônias torna essas camadas algumas de suas principais vítimas. Sua busca implacável pelo controle dos recursos naturais, a expansão dos conglomerados do agronegócio, a especulação fundiária e o aumento dos preços causado por crises e guerras estão arruinando ainda mais esse segmento da população.

As classes operárias, muitas vezes ligadas diretamente ao campo por laços de parentesco, também estão sob ataque e, portanto, têm interesse material em defender as massas rurais e toda a nação contra uma subjugação ainda maior. A única maneira eficaz de resistir é forjar uma aliança entre trabalhadores e camponeses pobres para, juntos, defenderem suas condições de vida. A tarefa dos revolucionários é construir essa aliança como um meio de avançar na luta anti-imperialista e, ao fazê-lo, expor a impotência das burguesias nacionais em confrontar a ofensiva dos EUA.

Defender a China! Abaixo aos burocratas do PCC!

President Xi and Trump
Kenny Holston/Getty

14 de março: o presidente Xi estende o tapete verme- lho para a camarilha de genocidas de Trump.

A defesa da China será um teste decisivo para os revolucionários no próximo período, assim como a defesa da União Soviética foi durante grande parte do século XX. A China não pode ser compreendida sem levar em conta a Revolução de 1949: embora muitas de suas conquistas tenham sido fortemente corroídas, os alicerces sociais criados por essa revolução não foram derrubados. O Exército Popular de Libertação, que destruiu as antigas classes dominantes, continua sendo a força armada do estado que emergiu desse processo revolucionário. Para o imperialismo estadunidense, cuja posição global é cada vez mais desafiada pela ascensão da China, a contrarrevolução na China tornou-se uma necessidade estratégica. A defesa da China é, portanto, inseparável da luta contra o imperialismo estadunidense.

O colapso da União Soviética demonstrou que a derrota de uma ordem social proletária não se limita a transformar um único país; ela reestrutura o equilíbrio global de forças. A vitória do imperialismo estadunidense sobre a URSS abriu um período de dominação sem precedentes, permitindo-lhe projetar seu poder com muito menos restrições. Uma derrota semelhante na China representaria um revés histórico ainda maior —a destruição e a subordinação de uma das maiores concentrações de forças produtivas do planeta—, agravando as condições dos trabalhadores em nível internacional. A questão, portanto, não é apenas o destino da China, mas o destino do proletariado internacional. Deixar de defender a China ou equipará-la aos EUA só pode fortalecer a ofensiva do imperialismo e acelerar a descida rumo ao barbarismo.

A defesa da China, no entanto, não pode ser separada da independência política do proletariado. Defender a China não significa apoio político à burocracia do PCC, que tem demonstrado repetidamente que busca um acordo com a ordem imperialista, em vez de contar com a classe trabalhadora internacional para desafiá-la. Na verdade, o PCC afasta ativamente os trabalhadores de outros países por meio de suas políticas nacionalistas nas esferas militar, política e comercial. A defesa da China deve ser combinada com uma luta contra a burocracia do PCC, cujo domínio impede que a classe trabalhadora atue como força decisiva na defesa e na ampliação das conquistas da revolução.

Quebrar a frente popular!

Em resposta à ascensão da direita, uma tendência crescente na esquerda busca alianças com forças “progressistas” para bloquear a reação, abandonando a independência de classe nesse processo. Eis a frente popular: ela vincula o movimento operário à ala liberal da burguesia. Isso impede que a classe trabalhadora possa desenvolver uma luta independente contra a base material da reação de direita.

O histórico da frente popular fala por si. Ela sempre falha em deter a reação. Na melhor das hipóteses, ela atrasa o processo, apenas para que aquela retorne com maior força. Na França, as repetidas alianças “republicanas” não interromperam a trajetória de direita do país; a extrema direita está agora mais próxima do poder do que nunca. Na Índia, a coalizão entre o Partido do Congresso, os partidos comunistas e outros partidos burgueses não conseguiu impedir a consolidação do BJP. A lição é clara: a direita não pode ser derrotada por meio do alinhamento com as forças que a alimentaram.

A tarefa dos revolucionários é quebrar a frente popular. Não basta condená-la; deve-se mostrar concretamente aos trabalhadores e às massas oprimidas como as alianças com a burguesia são prejudiciais aos seus interesses. Isso exige que os revolucionários intervenham ativamente e promovam táticas voltadas para formações como o DSA nos EUA, o partido de Mélenchon na França ou os partidos comunistas na Índia, a fim de acirrar as contradições entre as aspirações da base, por um lado, e a estratégia sem saída da liderança, por outro. Deixar de lutar por tal perspectiva só pode deixar a classe trabalhadora e a esquerda nas mãos do inimigo de classe.

Pela frente única!

A ascensão da reação de direita significou um aumento da repressão estatal contra ativistas de esquerda, bem como um crescimento dos ataques e provocações fascistas. De maneira mais ampla, diante da agressão imperialista e dos ataques ao padrão de vida e aos direitos democráticos, o movimento socialista e operário costuma estar fragmentado e enfraquecido. Para combater isso, os comunistas devem levar adiante a frente única, cujo objetivo deve ser unir as forças mais amplas possíveis em uma luta em prol dos interesses do proletariado.

No entanto, esse ponto simples é fonte de grande confusão na esquerda. Por um lado, muitas organizações socialistas acreditam que é oportunista formar qualquer bloco com forças não revolucionárias, deixando os oprimidos divididos diante do ataque. Por outro lado, é comum que socialistas justifiquem alianças oportunistas em nome da frente única. Normalmente, isso se traduz em colocar a tática da frente única —a necessidade de mobilizar as forças mais amplas— acima da estratégia à qual ela deve servir. Como explicou Trotsky:

“Marchar separadamente, mas lutar juntos! Chegar a um acordo apenas sobre como lutar, contra quem lutar e quando lutar! Tal acordo pode ser feito até mesmo com o próprio diabo, com a avó dele e até mesmo com Noske e Grzesinski. Com uma condição: não amarrar as próprias mãos”.

—“Por uma frente única dos trabalhadores contra o fascismo” (8 de dezembro de 1931)

Assim, a frente única pode ser formada com quaisquer forças —desde burocratas sindicais até políticos burgueses—, desde que sirva a uma causa específica no interesse do movimento operário: desde repelir um ataque fascista ou fazer campanha pela libertação de ativistas presos até defender uma greve e lutar contra ataques ao padrão de vida. Fundamentalmente, isso inclui a união com forças nacionalistas e de resistência contra uma agressão imperialista específica: a frente única anti-imperialista.

O objetivo fundamental da frente única é que os comunistas demonstrem, na prática, a superioridade de uma estratégia revolucionária para impulsionar até mesmo as lutas mais parciais da classe trabalhadora contra as estratégias liberais e legalistas dos elementos burgueses e não revolucionários.

Unam-se os oprimidos, fora com os liberais!

O colapso da ordem liberal e a ascensão da direita estão alimentando antagonismos sociais dentro da classe trabalhadora. As divisões entre trabalhadores imigrantes e nativos, negros e brancos, homens e mulheres, e em torno de questões como os direitos das pessoas trans, estão cada vez mais sendo usadas como arma contra os oprimidos. A direita direciona a raiva pelo declínio social contra as minorias, enquanto os liberais respondem por meio de apelos morais e políticas de identidade, aprofundando ainda mais essas divisões. Em países semicoloniais, essas polarizações frequentemente levam a conflitos étnicos e derramamento de sangue. Os revolucionários devem lutar para superar essas divisões e construir a unidade necessária para fortalecer a luta das massas.

Essa unidade deve ser construída demonstrando que a defesa dos oprimidos é do interesse material da classe trabalhadora como um todo. O preconceito e o chauvinismo enfraquecem a luta contra a classe dominante ao colocar segmentos da classe trabalhadora uns contra os outros. Por exemplo, as polarizações em torno de imigrantes e refugiados em países que vão da Grã-Bretanha à África do Sul têm origem no declínio social: escassez de empregos, colapso dos serviços e deterioração das condições de vida. A culpa não recai sobre os imigrantes, mas sobre as classes dominantes que permitiram a decadência da sociedade para proteger seus próprios interesses. A solução é uma luta unida de todos os trabalhadores contra a classe dominante.

No entanto, grande parte da esquerda marxista ou denuncia as ideias reacionárias e seus defensores sem uma estratégia para conquistar os trabalhadores e afastá-los dessas ideias, ou adota o economismo, marginalizando as lutas específicas dos grupos oprimidos em favor de demandas econômicas. Uma abordagem deixa os trabalhadores sob a influência da reação; a outra mantém as divisões intactas e empurra as minorias para os braços dos liberais. Os revolucionários devem rejeitar ambos os erros e mostrar como a classe trabalhadora deve defender a causa de todos os oprimidos para avançar em sua própria emancipação.

Transformem os sindicatos em órgãos revolucionários!

A classe trabalhadora está entrando em um período de ataques crescentes aos seus padrões de vida, direitos e organizações. No entanto, os sindicatos entram nesse período enfraquecidos por décadas de derrotas e pelo rumo colaboracionista de suas burocracias. Contra isso, os revolucionários devem lutar dentro dos sindicatos por uma liderança de luta de classes.

Isso significa intervir em todas as batalhas por salários, condições de trabalho e direitos democráticos, vinculando essas lutas à luta mais ampla contra o capitalismo e o imperialismo. Significa também romper com os limites estreitos dos sindicatos profissionais e organizar as camadas de trabalhadores não sindicalizados. Somente por meio dessas lutas concretas é que a influência das cúpulas sindicais pode ser derrotada e os sindicatos transformados em verdadeiros instrumentos de resistência proletária. Infelizmente, grande parte da esquerda revolucionária não aborda os sindicatos a partir desse ponto de vista. Lá onde tem influência nos sindicatos, seu trabalho é prejudicado pelas duas pragas do oportunismo e do ultraesquerdismo.

O oportunismo consiste em se adaptar às lideranças sindicais existentes, apoiar burocratas de “esquerda” ou simplesmente defender que a burocracia existente seja mais militante. Em vez de lutar para substituir a burocracia em bases revolucionárias, o oportunismo busca apenas exercer pressão sobre ela. O mesmo ocorre quando forças de esquerda assumem o controle dos aparatos sindicais, mas preservam os métodos burocráticos, ou quando o trabalho sindical se reduz a reivindicações econômicas imediatas, evitando as lutas políticas necessárias para unir a classe contra as divisões de raça, nacionalidade e gênero. O ultraesquerdismo é o erro oposto: ou substitui o trabalho paciente de construir uma oposição à burocracia por confrontos aventureiros, ou se abstém totalmente dos sindicatos por serem controlados pela burocracia. Seja por meio da adaptação ou do abandono, esses desvios deixam intacto o domínio da burocracia e fortalecem as forças responsáveis pelas derrotas da classe trabalhadora.

PARTE IV: A TAREFA DO REAGRUPAMENTO REVOLUCIONÁRIO

“As ações de massa tendem, via de regra, a dissipar divergências secundárias e episódicas e a facilitar a fusão de tendências afins e próximas. Por outro lado, os agrupamentos ideológicos, em um período de estagnação ou maré baixa, revelam uma grande tendência à diferenciação, às cisões e às lutas internas. Não podemos saltar para fora do período em que vivemos. Precisamos atravessá-lo. Uma diferenciação ideológica clara e precisa é incondicionalmente necessária. Ela prepara os sucessos futuros”.

—Leon Trotsky, “Agrupamentos na Oposição Comunista” (31 de março de 1929)

O movimento marxista não está preparado para as convulsões que se avizinham. É pequeno, fragmentado em inúmeros agrupamentos rivais e cada vez mais isolado da classe operária. Essa crise não é simplesmente resultado de condições desfavoráveis, mas, antes de tudo, de desorientação política: o fracasso em construir uma oposição revolucionária à ordem mundial liberal no período anterior, deixando o terreno aberto para que a direita tire proveito da reação atual.

Enquanto os EUA rompem com o antigo status quo e buscam um realinhamento reacionário, a esquerda está atolada em desorientação quanto às dinâmicas fundamentais que moldam os acontecimentos mundiais. Há setores que proclamam que a hegemonia dos EUA já entrou em colapso e colocam a China e a Rússia no mesmo patamar que os EUA. Outros cometem o mesmo erro ao aclamar a China e a Rússia como heróis anti-imperialistas. No plano político, a grande maioria da esquerda nega ou minimiza as derrotas sofridas pelo proletariado internacional nos últimos anos, servindo de álibi aos falsos líderes e calculando drasticamente mal o equilíbrio de forças de classe para as batalhas que se avizinham. Como resultado, muitos projetam grandes avanços para os marxistas no curto prazo. Assim como o mercado de ações, essas ilusões logo se dissiparão ao colidirem com a realidade.

Não afirmamos ter resolvido a crise da esquerda, nem temos todas as respostas; isso é coisa de tolos. Mas apresentamos alguns elementos-chave da análise e do programa marxistas para o período que se aproxima. Buscamos delinear as tarefas urgentes desta época: construir a luta contra o imperialismo estadunidense sem abandonar a independência proletária; combater a reação de direita sem subordinar os trabalhadores às forças liberais; defender a libertação nacional e unir as lutas dos oprimidos com uma perspectiva de classe revolucionária. Fundamentamos essa abordagem em uma análise concreta dos desdobramentos mundiais. É em torno dessas linhas que buscamos reagrupar o movimento marxista.

Tal reagrupamento requer um trabalho paciente de esclarecimento programático e teórico. Mas isso por si só não é suficiente. Os revolucionários devem buscar impulsionar as lutas concretas das massas em uma direção que corresponda aos interesses independentes da classe trabalhadora como um todo, expondo as traições dos falsos líderes e demonstrando na prática a necessidade de um programa revolucionário. Por meio desse processo, é possível forjar a base para o esclarecimento político e a unificação. Somente dessa forma o movimento poderá superar o conservadorismo, o burocratismo e o sectarismo. Somente dessa forma poderemos forjar a liderança revolucionária que a época exige.