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29 de outubro—Grande parte da esquerda está nas nuvens desde que o presidente Lula arrancou a vitória das garras da derrota no último domingo, depois de estar dois pontos atrás no primeiro turno. Seu forte desempenho resultou de uma mobilização vigorosa, entre os dois turnos, de membros do PT e ativistas pelos direitos das minorias que temiam a eleição de Flávio Bolsonaro. Eles realmente tinham muito a temer caso esse candidato de extrema direita tivesse sido eleito.
No entanto, a vitória de Lula não deve ocultar que o poder legislativo (tanto a Câmara dos Deputados quanto o Senado) se deslocou ainda mais para a direita, com o Partido Liberal de Bolsonaro saindo como o mais forte e a direita conquistando a maioria dos governadores estaduais nas eleições de 4 de outubro. Assim, as eleições de outubro no Brasil são, na melhor das hipóteses, apenas uma exceção parcial à guinada geral para a direita que varreu quase todos os governos de esquerda na América do Sul, instalando lacaios dedicados aos imperialistas dos EUA.
A escolha de Lula agora está entre buscar alianças renovadas com deputados burgueses ainda mais à direita do que durante seu mandato anterior ou basear-se no apoio popular expresso nas enormes manifestações das últimas semanas (algumas das maiores da história do país). Pois bem, Lula já fez sua escolha. Ele declarou na noite de sua eleição que o presidente “foi eleito para governar com base no respeito à Constituição, na relação com o Congresso… foi o povo que escolheu, e é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas”.
E ele já tinha escolhido antes do domingo, não apenas durante a totalidade de seus três primeiros mandatos, mas também com sua chapa, que incluía vários partidos burgueses e seu vice-presidente Geraldo Alckmin, do PSB, um partido burguês composto por latifundiários e capitalistas. Isso significa que a política do novo governo de Lula será necessariamente limitada pelo que é aceitável para esses partidos da classe inimiga, ou melhor, pelo que é exigido por eles.
Lula tem falado muito sobre o BRICS e diz que não quer ser um lacaio dos imperialistas americanos. Enquanto isso, ele privatizou enormes parcelas do patrimônio nacional em benefício de corporações imperialistas. Ainda neste ano, ele não moveu um dedo sequer para apoiar a vizinha Venezuela quando Maduro foi sequestrado pelas forças especiais dos EUA; não enviou nem um litro de petróleo à Cuba sitiada, apesar de o Brasil ser um grande produtor de petróleo; enviou armas ao governo boliviano de direita quando este enfrentou uma insurgência camponesa, tudo isso para que Trump gostasse dele.
Os imperialistas estadunidenses continuam tentando pressionar o Brasil e trazê-lo de volta, de forma mais sólida, para a esfera de influência dos EUA. Enquanto isso, os aliados capitalistas de Lula estão intimamente ligados ao capital imperialista, com empreendimentos conjuntos e outras parcerias comerciais no Brasil, ativos depositados em Wall Street e imóveis nos centros imperialistas, etc. Uma luta pela soberania nacional brasileira exige uma ruptura com a burguesia e a mobilização da classe trabalhadora contra os imperialistas.
Com seu conciliacionismo em relação aos imperialistas e aos capitalistas nacionais, Lula inevitavelmente atacará a classe trabalhadora e os oprimidos, levando a uma ampla desmoralização e à ascensão ainda maior da extrema direita. Esse cenário não é uma fantasia apocalíptica de sectários pessimistas: o Brasil já passou por isso, há apenas dez anos. Em 2014, o voto na candidata de Lula, Dilma Rousseff, foi vendido como um mal menor em comparação com o liberal de direita Aécio Neves, do burguês PSDB. Para satisfazer os mercados financeiros, Rousseff mergulhou a economia na pior recessão da era moderna. Então, quando ela se tornou suficientemente odiada por amplas camadas da população, sofreu um impeachment por um congresso que era menos de direita do que o atual. Seu vice-presidente, que chegou ao poder após apunhalá-la pelas costas, desencadeou uma série de ataques reacionários contra sindicatos, previdência social e estabilidade no emprego, levando à eleição de Jair Bolsonaro.
Esse cenário apocalíptico mostra que apoiar o mal menor contra a direita invariavelmente sai pela culatra. Isso não deve se repetir! Se a esquerda tivesse se unido no primeiro turno, em vez de apresentar quatro chapas diferentes (duas delas stalinistas e duas trotskistas) para oferecer uma oposição proletária sólida à frente popular de Lula, ela poderia ter sido vista como uma alternativa de esquerda e certamente teria obtido um número de votos mais significativo do que seus minúsculos 200 mil (menos de 0,2% dos votos). E se tivesse convocado a recusa ao voto em Lula e à abstenção no segundo turno (pelo que sabemos, apenas o minúsculo e politicamente instável PCO o fez, além de alguns grupos menores como o trotskista POR), a classe trabalhadora teria a quem recorrer quando se deparasse com a necessidade de resistir aos próximos ataques de Lula.
A tarefa da esquerda agora é fazer um balanço desta eleição e, antes tarde do que nunca, lutar pela independência de classe. A onda gigantesca de jovens e oprimidos entre os dois turnos eleitorais para impedir a eleição de Flávio mostra, de fato, que existe uma necessidade profundamente sentida de lutar contra a ascensão da reação. Isso só pode ser desencadeado se a classe trabalhadora assumir a liderança, de forma totalmente independente do inimigo de classe. O próprio Lula não concederá nada, a menos que se depare com uma mobilização nas ruas e nas fábricas contra sua política de conciliação com o capital. Temos de quebrar com a frente popular de Lula! Esse é o único caminho pelo qual a classe trabalhadora pode realmente lutar por seus próprios interesses e pelos dos oprimidos contra os imperialistas e a burguesia.

